Por: Miguel Marques
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A vida de Riccardo Riccò tomou
um rumo radical, longe do ciclismo profissional. Banido para sempre após vários
episódios ligados a doping, o italiano reconstruiu o quotidiano fora da
competição, focado no negócio e numa relação mais serena com a bicicleta. Numa
entrevista ao La Stampa, o antigo corredor revisita o passado, assume os erros
e explica como conseguiu reerguer-se após os momentos mais duros.
Trepador puro, no auge
bateu-se por algumas das provas mais prestigiadas do seu país natal, como a
Volta a Itália e a Il Lombardia, roçando o triunfo em ambas, mas somando várias
vitórias de nível durante a carreira profissional. Riccò integrou a desacreditada
Saunier Duval, onde rendeu muito acima das expectativas nos primeiros anos, com
três vitórias de etapa na Volta a Itália. Em 2008 foi segundo atrás de Alberto
Contador, mas esse patamar não foi alcançado de forma natural, e sim através do
uso de CERA, uma terceira geração de EPO.
Contudo, os hábitos de doping
não cessaram após a suspensão aplicada. Em 2011 confessou transfusões
sanguíneas, depois de uma delas quase lhe ter custado a vida, apesar de
inicialmente ter negado o recurso ao procedimento proibido.
Riccò reconhece o impacto da
queda em desgraça: “Destruíram-me, passei por momentos duros, caí em depressão
e noutras situações complicadas, mas não quero fazer-me de vítima”. Durante
anos, o ciclismo foi uma memória dolorosa: “Voltei à bicicleta há três anos,
depois de dez em que me doía ver os antigos rivais a correr e a vencer.
Lembrava-me do que eu já não podia fazer. Nem via as corridas”.
Com o tempo e ajuda
profissional, a perspetiva mudou: “Depois comecei a processar tudo, também
graças à terapia. Agora estou em paz, embora a ferida ainda exista”. Hoje, o
ciclismo já não é profissão, mas permanece como hobby: “Uso apps para me
comparar com os tempos dos profissionais e continuo competitivo”.
O italiano mantém também
ligação à modalidade através dos amadores, a quem aconselha: “Além de dar
dicas, faço algum acompanhamento. Sei duas ou três coisas sobre ciclismo. Sofri
e venci, por isso disse para comigo: porque não? Estou a treinar oito amadores,
gosto, é o meu mundo”.
Sobre o passado, não foge à
responsabilidade, embora enquadre a época: “Não procuro desculpas e aceito a
minha culpa, mas com o tempo muitos outros casos vieram a público”.
O italiano lançou ainda uma
observação contundente sobre dois compatriotas, alguns dos mais bem-sucedidos
do século XXI. “Se olharmos para a lista de corredores, todos os mais fortes
foram apanhados por doping, exceto o [Damiano] Cunego e o [Paolo] Bettini”.
“Quando há negócio envolvido,
é assim que funciona”. Na mesma linha, afirma que fez parte de uma dinâmica
generalizada: “Eu estava dopado quando todos estavam dopados”.
Um dos episódios mais graves
da carreira foi a autotransfusão que quase lhe custou a vida, prática que
descreve sem rodeios: “Não foi a primeira vez que a fiz. Andava a fazê-la há um
ano, porque era a única forma de não dar positivo: tiras o teu sangue e depois
voltas a pô-lo”. Como explica, não foi uma ideia isolada: “Não a inventei. O
Moser estabeleceu o Recorde da Hora na Cidade do México e disse publicamente
que o tinha feito”.
Agir sem
pesar os riscos
Riccò admite que agiu sem
avaliar os riscos: “Com transfusões autoaplicadas, é algo que pode acontecer.
Não tinha medo e fiz aquilo com leviandade. Se tivesse injetado cortisona de
imediato, nada teria acontecido, mas eu não sabia e, aos vinte anos, sentes-te
omnipotente”.
Quanto à suspensão vitalícia,
sustenta que a situação foi agravada por um caso em que, diz, não teve
responsabilidade direta: “Fui enredado num processo de tráfico de substâncias
dopantes com o qual nada tinha a ver, e provei-o em tribunal, mas a justiça
desportiva quis afastar-me de vez e conseguiu”.

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